SoulRock

Música independente brasileira

Ava Rocha

29 de maio de 2015 Resenhas /

ava
Fragmento da capa de Patrya Yndia Yracema.

Por Joca Vita

Ao ouvir Ava Rocha, sim filha do cineasta Glauber Rocha, tudo fico lindo e estranho. Sua voz forte-fraca extrema deixa uma névoa que paira nos ouvidos e na mente. O tropicalismo redivivo traz frescor e rebeldia e porque não dizer Luxúria, para esses tempos exacerbados e condicionados ao que é ”certo e garantido”. Leiam o texto do release abaixo muito bem escrito por Patrícia Palumbo e saibam tudo sobre essa Deusa ninfa.

Ava Patrya Yndia Yracema
por Patricia Palumbo    

Estava ansiosa pra ouvir o novo disco de Ava Rocha depois do impacto que me causou Diurno. Na época lembrei de Cássia Eller cantando Luiz Capucho com aqueles botões de rosa espalhados pela casa, falei de beleza e estranhamento. E aqui estamos. Ava, com seu timbre especialíssimo e suas escolhas acertadas mexendo com meus sentidos outra vez. Ava Patrya Yndia Yracema traz as provocativas canções de Negro Leo, as letras de sonho, as costas lisas para o mar, imagens tropicais (ou cariocas) e surreais. Jonas Sá, que produz o disco e toca violões e guitarras, vibrafone, caxixi e outras mumunhas mais, comparece também como compositor com a linda Jardim - que tem uma adorável cara de Torquato Neto. O mar sempre presente, como uma sensação. A mulher que não é a que você procura. Uma onda suave, uma quebrada dissonante, mudanças de clima de uma faixa para outra, muitas dinâmicas numa só canção. A doçura de ser mãe, a força de ser mãe e o discurso manifesto, o engajamento tão necessário e raro.

Um disco, digo mais uma vez, cheio de imagens. Sugestões. Ouço cordas em contraste com a percussão densa, de mata escura. Arranjos de cordas e sopros assinados por Jonas e Daniel Vasques. Perfeitamente bem usados, esses instrumentos deixam o trabalho ainda mais sofisticado. Mais denso, cheio de camadas, níveis, texturas desenhadas ao lado de feras como Pedro Sá, Thomas Harres, Pedro Dantas, Gabriel Bubu, Gustavo Benjão, Marcelo Callado, Ricardo Dias Gomes, Claudio Andrade, Marcos Campello. Domenico Lancelotti tem aquela presença suave coisa nenhuma, é um inventor. E ainda assina a deliciosa Doce é o Amor com Bruno di Lullo. Nós sabemos que a música feita hoje no Brasil é diversa e rica assim por que esses músicos existem, esse estofo, essa retaguarda que dá todo o poder ao discurso poético da canção. E Ava está muito bem cercada, sendo ela mesma - já - uma artista de destaque nesse contexto.

O disco chega com a marca de uma geração cheia de talento e de possibilidades. Numa hora em que se pode fazer tudo e que a relevância é discutível, esse é um trabalho pra ficar. As composições de Ava Rocha são tão especiais quanto sua voz. Chuva saliva caindo da língua, marinheiros que tombam no forte, boca do inferno, pau de angola…palavras, imagens pra sair do comum mesmo falando do ordinário da vida. Sei que é cansativa essa insistência em buscar traços de tropicalismo em toda nova onda, mas Ava é Macalé, é Fatal, é Sailormoon, é herdeira direta. Já temos um passado, meu amor. Nessa eu mergulho de peito aberto, sem pensar, do coração até o mar.

Ouça Ava Rocha:
https://soundcloud.com/avarocha/sets/ava-patrya-yndia-yracema-1

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O SOULROCK é um site que tratará a nova música independente brasileira. As conexões com o passado e suas reverberações com o futuro.Vai mostrar também a cena autoral ribeirão-pretana de um jeito jamais retratada.
O caldeirão está aberto.